sexta-feira, 1 de abril de 2011

Breve trecho - Ensaio de Ficção Espacial - Gardenia, a Flor de Prata!


Finalmente chegara o dia da minha viagem até a Gardenia, que estava "ancorada" na costa sul do Japão. Deixei meu quarto um tanto nervoso, já fazia um bom tempo que eu não embarcava para o espaço, e eu nunca tinha viajado em uma nave tão grande como a Gardenia. Ela fazia a sua 3ª viagem pelo Sistema Solar usando seu eficaz sistema de propulsão elástica, que aproveitava de forma inteligente a própria inércia da atração gravitacional de um planeta como a Terra para fortalecer a potência e a aceleração constante do lançamento no vácuo.
Era uma ótima oportunidade, o meu contrato duraria 5 anos a bordo desse colosso. Eu teria que cuidar de alguns setores da nave enquanto estivesse nela, para então, de tempo em tempo, fuçar algumas sucatas espaciais e emitir relatórios sobre as causas de suas panes, de seus acidentes. Basicamente, eu viveria em uma nave classe-A de graça, contanto que eu trabalhasse para ela, e também contribuísse para a missão paralela de investigação de acidentes com naves abandonadas nas rotas que cruzassem com a nossa. Chamamos nossas rotas de arcos de cruzeiro.

Jéssica, a minha patroa, já me aguardava na Gardenia, mesmo assim, me informaram poucos detalhes sobre nossas missões paralelas à bordo da gigantesca nave. Apenas que tinhamos à disposição uma nave de pequeno porte, porém potente, para fazermos as escalas pelos destroços à deriva. Mas que em um deles precisaríamos ficar pelo menos 15 dias, o que nos cobraria um prazo fixo para investigar e estabelecer as razões que levaram uma nave gigantesca relativamente segura de passageiros perder todos seus contatos com os controles, sem emitir nenhum sinal de emergência, e aparentemente, sem nenhum sinal de vida. Ela estava tão longe que somente a viagem de escala (ida do arco de cruzeiro à possível localização) duraria cerca de 2 meses, e mais 9 meses para reconectar-se à Gardenia.
Ouvia-se falar muito sobre o paradeiro da Marilian-09, e a imprensa apimentava um "suposto descaso" com as vítimas da Marilian, porém, pouco podia se fazer por uma nave tão distante, o espaço não é como o oceano na Terra, onde em algumas horas uma missão de resgate chega com tudo necessário para o salvamento. A gigante havia se aprofundado em velocidade de cruzeiro em uma nuvem de poeira, já sem controle, e não deu mais sinais de vida, a nuvem havia bloqueado quaisquer sinais que ela poderia emitir ou receber. O espaço é grande, e já fazia quase 1 mês do acontecido.

Minha missão na Marilian era descobrir o que gerou o problema dela, que sistema na nave havia falhado. Juntamente com a tripulação de Jéssica, todos agentes da agência de investigação, deveríamos no menos tempo possível chegar a uma conclusão e se possível direcionar a nave para um local ideal próximo ao 3º arco do sistema solar (Terra).
No avião, pensava em como reorganizar minha cabeça para uma missão, depois do acidente e da recuperação na estação da Europa.
Cheguei ao Japão às 20:00 (hora local) e já havia um ônibus levando as pessoas que iriam embarcar na Gardenia. Um recepcionista da agencia me entregou uma mochila, com um crachá, e um I-Micro (uma espécie de computador portátil). Ele me disse qual o portão que eu deveria embarcar, e qual setor e pessoas procurar lá.
Uma hora de viagem no ônibus, e chegamos à plataforma onde estava a Gardenia. Haviam trens de carga, caminhões, aviões gigantescos, etc, todos em volta da Gardênia, quase não tive tempo de admirar a beleza dela, o sentimento de pressa era inevitável. Tomei um café bem rápido, e corri com minha mochila para o embarque. Foi estranho, não caiu a ficha tão cedo de que eu ficaria cerca de 5 anos nos interior daquele aparelho estrondoso ligeiramente prateado que liberava vapores e fumaça por todos os cantos, parecido com uma torre disforme, com tantas luzes que era difícil definir uma forma à ela. Ela era banhada por aeronaves de todos os lados, com banhos térmicos para não congelar, principalmente no topo, que ficava á quase 2000 pés do solo.
Atravessei a ponte que levava ao meu portão de embarque, cruzei o vão entre a ponte e o assoalho do meu andar pretendido com receio, um acidente, por mais forte que sejamos, sempre deixa marcas. O cheiro de plástico, misturado ao odor que os produtos de limpeza recém aplicados no carpete vermelho e azul me deixaram um pouco tonto, os anti-depressivos ainda me deixavam meio bobo em situações típicas, eram efeitos dispensáveis, mas incomodava bastante.

Nunca tinha entrado em uma nave como aquela, tão bonita, tão moderna. Por ser japonesa, tinha uma organização excepcional, os elevadores bem localizados, setores idem, andróides bem identificados, conexão Wi-fi veloz, uma infra-estrutura de dar inveja em qualquer meio de transporte moderno. Me senti meio deslocado até, pois até então só havia frequentado os ambientes antiquados das naves de patrulha, que pareciam mais calabouços frios e rodeados de tubos e válvulas exalando vapor. Meu I-Micro tocou então, exibindo a imagem do rosto de Jéssica, andando pelos corredores à meia-luz da Gardenia, atendi portando uma voz séria, para impressioná-la:

-Agente Carmichael!
-Boa Noite Graig, é a Capitã Jéssica, tudo bem contigo? (uma voz jovem, porém firme responde quase antes de eu acabar)
-Tudo bem Capitã, acabei de chegar na Gardenia!
-hmm...a viagem foi tranquila?
-positivo, tudo correu muito bem!
-ok, após a decolagem, vou convocar uma reunião com a nossa tripulação, só o pessoal da agência, para alinhar o cronograma da nossa missão e deixá-los informados sobre tudo!
-Sim Capitã, estarei pronto até lá!
-Me chame de Jessi.....ah, não atrase, e o local da reunião ainda será definido! Boa Noite Carmichael, boa decolagem!
-Igualmente Capitã! Boa decolagem!
Mais algum tempo e cheguei ao meu setor inicial, somente para os primeiros dias, em seguida seria enviado para um quarto mais próximo ao meu local de trabalho. Comecei a me sentir em casa novamente, uma sensação de que o lugar estava me acolhendo aos poucos foi tomando conta de mim. Eu estava novamente em uma nave, prestes à mergulhar na escuridão fria do universo.

Continua...