sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Angústia Matutina

A noite então vai embora
ela não some no horizonte
desintegra suave no ar
quando percebo, lá está a luz
o sol, já incomodando por detrás do horizonte
Escuridão, apaixonante breu
nas trevas faz de mim um rei
torna meu olhar confortável
nestas suas estrelas oscilantes
o céu noturno, abençoada visão
Calo-me sempre que vejo aquela luz
que vem de leste, me visitar
quando penso nela, tão distante
me conforto, sei que não estou sozinho
lá ela arde em energia, só pra mim
ninguém a repara na vasta capa negra
cheia de companheiras, mas ela lá está
sobre o meu olhar, na minha cama
e insisto em não tirar os olhos
até ela cruzar meu pequeno céu
Então os pássaros cantam, aos poucos
e o silêncio vai embora
o azul celeste força sua entrada
e a minha querida vai para oeste, brilhando, sempre!
preciso dormir, não vale a pena, viver este dia sem ela...
Amanhã vejo-a novamente, admirando-a a noite inteira...

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

A.H. - Parte 1


Entro pelo vão frio que corta com violência o muro cinzento da horrenda fachada apagada
silêncio gelado, o escuro aqui tem um ruído inaudível tão pesado que pressiona-me os ouvidos
a cada passo tenho a estranha sensação de despedida, do lado de fora do muro
o hospital me torna seu visitante inesperado, incomodo. Sou um intruso!
calo-me sem antes falar nada, o silêncio ganha cores no escuro
o preto coagulado se sobressai acima ainda da escuridão frígida, é o sangue em toda parte
entre os pisos, azulejos, cada canto guarda sua carnificina mórbida
respirando pelo nariz, o odor putrificado da carne se mistura ao ferrugem corroído no ar
a minha marcha ao nada é pesada, ineficiente perante a massa escura que me agarra
chuto sem prever um grupo de unhas mergulhadas no sangue pisado
descendo um lance de escadas, avisto na altura dos meus olhos um corpo
pálido, massa disforme, reconheço um lábio suturado a um dedo, doentia visão
irracionalidade aplicada com violência a um corpo pálido dependurado em um gancho
ouço passos em cacos de vidro no chão molhado
minha chama do isqueiro oscila contra minha face, não posso ver sequer um palmo a frente
como uma cortina preta que aparece do nada, estou cego
cerca de 3 corpos respirando ao meu redor, caminhando calmamente
não os vejo, mas estão vivos, meus olhos estão virando para cima
minha boca abre e lanço um ruído estranho e vomitado entre um quase sussurro
minhas costas se dobram em incontáveis voltas, a dor vem como um orgasmo pulsante
meu osso está visível aos meus olhos trêmulos, parece um maxilar, é o meu próprio
os seres andarilhos gemem muito alto, o susto não é permitido entre as dores que sinto
estou ainda me retorcendo no chão, por uma força descomunal que nunca senti antes
mancando na parede, ainda tento um último sinal de resistência
mesmo assim, sei que meu corpo não tem mais volta, e ainda estou consciente
não acredito que entrei, porque entrei?!
pareço estar ao avesso sobre o sangue coagulado que arrasta-se no chão abaixo de mim
vomito o que parece ser sangue, quente, o sabor de metal, isto é familiar
em dez segundos, cerca de quarenta sons horríveis dos meus ossos se estraçalhando
agora me agito em desespero, sinto os ossos rasparem no chão e no canto da parede
então sou comprimido a algo do tamanho de um cão
estou reduzido, esmagado pelo ambiente
e ainda respiro
ainda vejo
ainda sinto
ainda vivo....
....
...
..
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