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domingo, 29 de maio de 2011

Ruínas e o Fogo - O Espírito da Chama Eterna


Flutuava por entre os becos frios
planava livre sobre os telhados gelados
sentia hora ou outra o alento quente das chaminés
o cheiro de madeira queimando em brasas
no horizonte o alto bosque em trevas
garante, porém, o aconchego do isolamento
o odor constante de mata molhada
o som da brasa nas lareiras de pedra
as lanternas oscilantes
a vila escurecida pela escuridão do céu

em algum lugar água escorre gelada
em algum canto alguém sorri pro seu amor
em qualquer canto uma criança brinca com o seu cão
em alguma casa uma família dorme
em outra uma conta histórias

o vento úmido gela meu rosto fantasmagórico
trás a névoa filtrada pela mata vazada
o senhor que carrega a tocha de fogo firme
caminha pelas ruas de pedra
ascende cada lanterna que;
dependuradas nas paredes, são a trilha para o centro
são a beleza da noite, elas não dormem
cuido para que cada luz não se apague
nestas ruas de paz
em algum lugar do passado
isso era um paraíso
hoje são ruínas
e eu, um fantasma perdido
que alimentava o fogo, a luz, o calor
e me alimentava da natureza
com respeito e sabedoria
tudo se foi
mas eu ainda estou aqui
nas chamas de quem não perdeu o brilho
nas lindas lanternas hoje raras
porém tão lindas, tão valiosas
ainda estou aqui
alimentando o mesmo fogo
que nasce da mesma natureza
com o mesmo calor
com a mesma luz
com a mesma intensidade
com o mesmo som
eu sou o mesmo...
...e serei pra sempre
sem luz não há escuridão
sem escuridão não há o seu brilho
sou o fantasma que te observa
na fronteira das trevas
que te abraça sem que perceba
no escuro das suas ruínas

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Erro Primordial


No meu passado de dor...
...memorizei meus erros
esqueci meu triunfo
minha alma vagarosa
e meus campos petrificados
minha aparente queda
o espelho não mais me encarava
meus olhos, não mais os via
não mais, acabara ali o meu encanto
estou mais próximos dos cantos
mais a vontade com o breu cego
desgraçada angústia da manhã
a podridão de um novo dia
camadas de visões pessimistas
impediam-me de sair de casa
morram doces jovens do futuro
adoeçam pobres sombras do passado
calarei cada hipócrita ativo
cada Messias imaculado
faço das minhas mãos hereges
veja os alvos no alto céu da falsa hierarquia
seu "Deus" está morto, eu mesmo o enterrei
na alta e vultuosa montanha de sangue
oh, minhas pagãs carbonizadas
minhas dádivas naturais
adoram a tal da Lua
surgem com vigor da caverna de Platão
de posse da cabeça putrificada....
...de uma imagem fraca e imunda de um louco sagrado
...estou no alto de minha tristeza, convertida em fúria
de minha raiva nascem os novos conceitos
bravos heróis renascentistas, ouçam-me
siguemos o norte verdadeiro...
esta noite somos ricos, somos a libido na carne
somos do osso à pele o banho real
deixem que os pobres prometidos do paraíso engulam seco
suas desilusões previstas pela natureza carnal
deixem que sofram o que sofremos por bem
o que me tornou, um mero pagão...
um mortal que vive a imensidão inexplorada
que chora, sorri, e um dia morre
vida longa a carne...

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Chuva Fria


Chuva fria, calma dança das águas
leve e contínua, constante inspiração
vê-te na queda com tanta beleza
andarilha dos céus, refresco da geada
apaga o brilho do sol ordinário
tens sempre bons motivos para vir
cada dia de frio lhe é bem servido
e na mata faz sonata ao cair
nos rios entra no compasso da correnteza
na tremula cidade de pedras, domina
no altar dos picos montanhosos renasce
sugere ao poeta seu tema, sua paixão
nem que triste seja seu coração
na simplicidade do gramado externo
cai na maravilha de seus passos
bailarina d'agua, cintilante pouso
sua sensualidade atrai meu olhar
na vidraça, triste céu pálido
adormeço na minha depressão
caindo no buraco que de tão fundo
acordara antes de chegar ao seu fim
seu sussurro ainda permeia na janela
lágrimas secam, mas você minha deusa
não permite que estas sejam falsas
leve chuva gelada, você me diz sempre...
...que a vida é triste, e como é triste...
mas ainda sim é real!

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

O Fantasma do Mar - trecho de "A Base Chacrau"


A neblina arrebenta sua fluidez nas pedras cinzentas do grande muro
contorna com sabedoria as arestas desgastadas, outrora firmes
o orvalho divide-se na cor com a geada matinal, o frio tão triste
lanterna, sugira o caminho desta neblina que vaga no bosque frio
seja a melhor anfitriã do vento que vem de mar lá abaixo
sua imensidão cobre o mato seco que permeia a muito sem vida
neblina, névoa densa, véu do mar, fantasma do litoral
cala a fanfarra do vento alegre que já fora a tempos passados
transforme o ambiente do seu caminho até esta construção quieta
o bosque por onde passas admira-te em sua condição suprema
purifique o ar com o silêncio que carrega das pedras do farol de longe
avante com louvor para além da copa dos eucaliptos, além dos morros
vá até os túneis onde os espíritos renegados choram a perda da alegria
dê uma razão para vagarem em busca do seu fim previsto
seja a inspiração do pianista mascarado, seu tema omnipotente de solidão
acaricie o cabelo solto da dama de lilás cruzando a ponte das luzes
fantasie os olhos da criança mimada e desiludida nos terraços do vale
traga inocência às terríveis assombrações da cidade ao leste e cale-as
nos fortaleça com o cheiro amargo do sal do oceano
tal oceano, que fora palco de passagens surreais das embarcações de ilusões
dos dragões no alto, das aeronaves cruzadoras, dos metálicos seres submarinos
varrendo a maldade humana da superfície, seja nossa baixa atmosfera
nossa deusa, minha névoa amada, nunca deixe de vir
em todas as manhãs frias...

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

A.H. - Parte 1


Entro pelo vão frio que corta com violência o muro cinzento da horrenda fachada apagada
silêncio gelado, o escuro aqui tem um ruído inaudível tão pesado que pressiona-me os ouvidos
a cada passo tenho a estranha sensação de despedida, do lado de fora do muro
o hospital me torna seu visitante inesperado, incomodo. Sou um intruso!
calo-me sem antes falar nada, o silêncio ganha cores no escuro
o preto coagulado se sobressai acima ainda da escuridão frígida, é o sangue em toda parte
entre os pisos, azulejos, cada canto guarda sua carnificina mórbida
respirando pelo nariz, o odor putrificado da carne se mistura ao ferrugem corroído no ar
a minha marcha ao nada é pesada, ineficiente perante a massa escura que me agarra
chuto sem prever um grupo de unhas mergulhadas no sangue pisado
descendo um lance de escadas, avisto na altura dos meus olhos um corpo
pálido, massa disforme, reconheço um lábio suturado a um dedo, doentia visão
irracionalidade aplicada com violência a um corpo pálido dependurado em um gancho
ouço passos em cacos de vidro no chão molhado
minha chama do isqueiro oscila contra minha face, não posso ver sequer um palmo a frente
como uma cortina preta que aparece do nada, estou cego
cerca de 3 corpos respirando ao meu redor, caminhando calmamente
não os vejo, mas estão vivos, meus olhos estão virando para cima
minha boca abre e lanço um ruído estranho e vomitado entre um quase sussurro
minhas costas se dobram em incontáveis voltas, a dor vem como um orgasmo pulsante
meu osso está visível aos meus olhos trêmulos, parece um maxilar, é o meu próprio
os seres andarilhos gemem muito alto, o susto não é permitido entre as dores que sinto
estou ainda me retorcendo no chão, por uma força descomunal que nunca senti antes
mancando na parede, ainda tento um último sinal de resistência
mesmo assim, sei que meu corpo não tem mais volta, e ainda estou consciente
não acredito que entrei, porque entrei?!
pareço estar ao avesso sobre o sangue coagulado que arrasta-se no chão abaixo de mim
vomito o que parece ser sangue, quente, o sabor de metal, isto é familiar
em dez segundos, cerca de quarenta sons horríveis dos meus ossos se estraçalhando
agora me agito em desespero, sinto os ossos rasparem no chão e no canto da parede
então sou comprimido a algo do tamanho de um cão
estou reduzido, esmagado pelo ambiente
e ainda respiro
ainda vejo
ainda sinto
ainda vivo....
....
...
..
.