domingo, 4 de maio de 2014

Sanidade Temporal (In)

http://rafa-akizuki.zip.net/images/where.jpg


Estou à procura

De um ponto de equilíbrio

Entre a lucidez e a sanidade

Entre a falsa expectativa e o  conceito de tempo

Entre o medo do futuro, e o resíduo do passado

Estou sonhando, mas então acordo

E tudo que pensava estar certo

Era um sonho dentro de um sonho

Vejo minhas mãos

Meu rosto

E tudo não passa de um espelho de mal gosto

Infiltrado na minha própria ilusão, sem descanso

Sem auto questionamento

Sem estima, à deriva

Um vácuo na racionalidade

Uma espera ansiosa pelo nada

Pelo espaço sem fim

De um subconsciente

Inevitável e inconscientemente instável

Alto infringido

Uma tragada entre milhões de vidas

Um respiro de pressão

Minha saída

Meus falsos caminhos

Minha liberdade baseada na falta dela

Meu sofrimento de batalha

Minha ilusão de presente

Minhas mágoas do passado

Meu fantasma do futuro

Meu avanço pelo tempo

Minha característica

Então nada é meu

Nem eu

Tudo não me pertence

Nem eu, nem sequer a ilusão

E quando o sol se põe

A realidade gruda em meu pescoço

Como um espírito inefável

Como uma coleira presa à tátil realidade permanente

Difícil

Uma pornô crueldade estagnada em minha carne

Em meus ossos

Na minha dor de coluna

No meu recente corte de cabelo

Dessa maldita realidade travada no tempo

O que é ilusão¿ O sonho de ontem¿ Ou a realidade de amanhã¿

Bom, o presente, esse eu conheço muito bem

Luto contra ele todo dia

Para tornar o futuro, um sonho digno de um profeta amador

Um mago hipócrita e vulgar

Que se vangloria através da própria linha de raciocínio

Basta esperar o inevitável amanhã

Um banho de sangue e lágrimas

Condensada pela brisa noturna na janela de vidro frio

Em um quarto sem portas, onde todos me esperam lá fora

Com sorrisos esperançosos e cadentes

Eles requerem chances que se esgotam

De uma vasilha real e barulhenta

Em uma cozinha cheia de louças e venenos

Da mais maldita ilusão

Da minha maldita falta de senso

De realidade

Basta!

quinta-feira, 17 de abril de 2014

Confissões do Inconsciente Parasita! (Parte UM)


As vezes me sinto dia após dia acordando de um longo sonho! Isso é muito bizarro pois é como se aquele Alex estranho e estressado do dia anterior fosse um personagem e o Alex que acabou de acordar fosse um mero espectador!
E hoje em especial, hoje fosse o dia da glória, de um Azul Perfeito...
Esperei muito por essa resposta, muito...
Acredito que meu inconsciente, aliás, o de todos, age como um teatro simbólico, estou ficando doido? Ou seria este meu "autodiagnóstico".
Bom, cômico ou trágico, amanhã vou saber!
Isto é muito estranho!
Se eu não saber, talvez depois de amanhã, eu saiba então que tudo não passava de um sonho!
A vida prega peças? Estaria eu, me aproximando da temida morte?
Pois o EU de ontem não tinha medo dela!
Acabei de descobrir, que aquele de ontem, tem medo da morte sim!
Pois eu e ele sabemos que a morte não pode ser forjada em sonho.
Esta, meu caro, é a única que existe de verdade, e não passa de uma questão de tempo.
Sinto meu inconsciente se aproximando de longe, como um coadjuvante da minha vida, revoltado com tudo que eu faço, tentando interferir.
Como um breve e vultuoso fantasma que some nos cantos da cozinha fria assim que a luz se ascende.
Após meu desespero de saber de sua existência.
Saberei então, amanhã, se isso faz sentido, para o homem estressado de amanhã!
E dos dois UM.
Ou saberei que estou próximo do fim da minha vida, ou aprenderei a aceitar em breve...
...que minha vida inteira não passou de um sonho!
Então direi:
......Finalmente, seu tolo!

sábado, 7 de setembro de 2013

Carne e Cinzas

C&C_Nº1       [[DESFECHO DE UM MORIMBUNDO EM CHAMAS]]



Minha mente
é a cúpula de energia
sob o céu oco
mirastes para além da condição humana
e passas a viver como simples alma
pura essencia, como flores no orvalho
após viverem e aprenderem na escuridão
de uma noite gélida
soam as trombetas pecaminosas no céu
diante da vertigem do abismo infernal
milhares de larvas em minhas entranhas
e só pude pensar em você
e no amor a que me confere
dia-a-dia com tamanho carinho
então ressurgi como após um solitário pesadelo
agora estava nas copas das árvores de um sonho
engrandecido de memórias inesquecíveis, omitidas pelo presente
...e afazeres mundanos
pura ilusão 
que luto para virar...
uma simples verdade!

domingo, 29 de maio de 2011

Ruínas e o Fogo - O Espírito da Chama Eterna


Flutuava por entre os becos frios
planava livre sobre os telhados gelados
sentia hora ou outra o alento quente das chaminés
o cheiro de madeira queimando em brasas
no horizonte o alto bosque em trevas
garante, porém, o aconchego do isolamento
o odor constante de mata molhada
o som da brasa nas lareiras de pedra
as lanternas oscilantes
a vila escurecida pela escuridão do céu

em algum lugar água escorre gelada
em algum canto alguém sorri pro seu amor
em qualquer canto uma criança brinca com o seu cão
em alguma casa uma família dorme
em outra uma conta histórias

o vento úmido gela meu rosto fantasmagórico
trás a névoa filtrada pela mata vazada
o senhor que carrega a tocha de fogo firme
caminha pelas ruas de pedra
ascende cada lanterna que;
dependuradas nas paredes, são a trilha para o centro
são a beleza da noite, elas não dormem
cuido para que cada luz não se apague
nestas ruas de paz
em algum lugar do passado
isso era um paraíso
hoje são ruínas
e eu, um fantasma perdido
que alimentava o fogo, a luz, o calor
e me alimentava da natureza
com respeito e sabedoria
tudo se foi
mas eu ainda estou aqui
nas chamas de quem não perdeu o brilho
nas lindas lanternas hoje raras
porém tão lindas, tão valiosas
ainda estou aqui
alimentando o mesmo fogo
que nasce da mesma natureza
com o mesmo calor
com a mesma luz
com a mesma intensidade
com o mesmo som
eu sou o mesmo...
...e serei pra sempre
sem luz não há escuridão
sem escuridão não há o seu brilho
sou o fantasma que te observa
na fronteira das trevas
que te abraça sem que perceba
no escuro das suas ruínas

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Inconsciente-Coletivo - Nº1

Uma breve introdução a respeito da teoria do "inconsciente coletivo", adaptada mediante experiências e conclusões minhas, perante o meu estudo pessoal sobre o assunto.
No decorrer de milênios vimos civilizações nascerem, se adaptarem e sucumbirem sob o manto subjetivo de ícones ora mitológicos, e por vezes somente alegorias representantes de quesitos notáveis para uma vivência plena evolutiva. Por outro lado, também temos no histórico humano acontecimentos verídicos que marcaram nossa linha do tempo, estes catalogados por diversas sociedades, ainda que sujeitos à interpretações das autoridades e força maior atuante; No subsolo vívido destes, mas não menos importante, temos a resultante, o produto de uma fórmula grotesca e complexa da conseqüência de nossa experiência no mundo. A consciência vive durante o dia, durante nosso período de conciliação entre emissão e recepção de dados por meio dos nossos 5 sentidos. O escape dessa troca de experiências, se dá por meio da absolvição permanente de milhares de sentimentos temporários, criando assim a estrutura básica da interpretação pessoal.
Se observarmos com atenção tal raciocínio, tal interpretação se auto-alimenta desse elemento psíquico para a formulação da estrutura de reconhecimento prévio das conseqüências causadas ao nosso corpo em um todo. Sendo tais conseqüências filtradas pelo subproduto do ego, o que eu chamo, pessoalmente, de "conexão natural inconsciente".
Resumindo, nossas experiências diárias são despejadas em forma de uma estrutura complexa, que molda nossa interpretação. Essa interpretação se alimenta com cada vez mais experiências, que vão se filtrando automaticamente com a "conexão natural".
Onde entra o inconsciente coletivo? Exatamente nessa filtragem é onde mora o acesso à essa conexão. Assim como todos os elementos físicos do universo, estamos conectados à essa imensa complexidade do caos, mesmo sem percebermos tal "dom" natural. Estamos conectados à um "banco de dados" onde são atualizados todos nossos resultados destas interpretações perante o universo visto diante de tantas mentes ativas. É claro que há uma freqüência de operação, alinhada naturalmente pela nossa evolução, dessa forma só podemos receber as informações à altura de vosso intelecto.

Nossa tradição de manter a seriedade da história, mesmo que das representações abstratas e irreais dos ícones adotados (principalmente pelas diversas religiões já criadas), serve como plataforma dessa nossa memória. Herdamos as memórias dos nossos antepassados, através da supra-consciência que está sendo cada vez mais estudada, mesmo que em um meio científico oculto.
Sonhamos com acontecimentos em tempo real do outro lado do mundo, ainda sob nosso filtro interpretativo, mas sonhamos. E temos isso despejado de forma cada vez menos subjetivas nos nossos 5 sentidos. Quando sonhamos, ainda temos tais sentidos nos auxiliando na estrutura básica da interpretação à definir toda essa plataforma de memórias herdadas e ainda sim usamos a nossa conexão para receber as informações do mesmo banco de dados mental.
Por sorte, nossa humanidade vem destilando vários sentimentos complexos em símbolos diversos, os arquétipos, de Jung*. Tais símbolos, ou melhor, ícones; São úteis para um estudo mais preciso da mente oculta, tal particularidade que dividimos espaço entre um dia ou outro, quando sonhamos, etc.

Estamos em sintonia com um universo resultante do caos expansivo, talvez até fatiado em dimensões temporárias. Nos comunicamos conscientemente, e principalmente inconscientemente utilizando o dom natural do inconsciente-coletivo. Que quando bem interpretados, nos permitem ler os ícones arquétipos de forma a poupar a falta de nexo, preenchendo esta com significados que nos fazem sentido a medida que absorvemos a cultura histórica humana. Tal cultura, quando refletida sob o contexto simbólico, faz todo o sentido unida à estas experiências inconscientes durante os nossos sonhos. Apenas para efeito de curiosidade alheia, os Shamans de muitas religiões tinham acesso a estas informações por meio de distorções conscientes, que os deixavam em um meio termo entre o estado consciente e o inconsciente.

Vale lembrar que os sentimentos primordiais da vida, como o medo, o amor, o ódio, etc, nos causam interpretações errôneas dos dados do inconsciente-coletivo, porém, sob certo policiamento e auto-controle, logo torna tais dados recepções neutras, livres para serem absorvidas de forma fria e inteligente.

Para finalizar, quero deixar claro que isso não passa de uma teoria em evolução. Acredito que ainda há muito o que lapidar dessa confusa definição de inconsciência-coletiva. É um estudo pessoal, mas direcionado, desta faceta mental. Está suficientemente comprovado pra mim a existência desta conexão com o universo, por meio de experiências pessoais seguras e concretas na minha vida. Portanto, cabe ao leitor deste breve texto encarar o assunto como confiável ou não, nunca é tarde para evoluir, e adaptar novos dados à teoria. Minha interpretação, mesmo que às vezes sujeitas a termos ingênuos (por serem pessoais e pertencentes ao meu estudo), é somente minha, porém aberta à sugestões externas e enriquecimento por meio de troca de experiências e conversas paralelas com outros interessados no assunto.

-Alex Martines

*Carl Gustav Jung

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Breve trecho - Ensaio de Ficção Espacial - Cap. Chegada à Nave Fantasma



Acordei tenso, a Marilian estava a vista. Gigantesca sucata escurecida pela ausência total de luz, encoberta pela nuvem de poeira, tal mancha escura era 17 vezes maior nosso companheiro Júpiter, o atrito aparentemente havia frenado a Marilian em seu interior.
Nossa pequena nave de interceptação estava a poucas horas de acoplar em uma das escotilhas de emergência da gigante. Começamos a procurar ela no meio da poeira, segundo o sonar, já deveria estar visual da nossa cabine, mas somente a escuridão e os gases da poeira eram visíveis perante nossos faróis. Vladmir estava revezando rapidamente o olhar entre o sonar e as janelas do cockpit, tentando a todo custo uma aproximação segura daquilo que parecia estar muito perto para não ser visível. A vista era semelhante ao do fundo do mar com muita areia escura suspensa na nossa frente. Jessica apontou rapidamente, sem dizer nada, às 14 horas da nossa proa, e disse depois de uns 5 segundos:

-Juro por tudo que eu vi uma luz branca piscando bem forte ali.
....Vladmir reduziu toda a potência! E disse quase instantaneamente depois do alerta de Jessica:
-Usarei o laser, já está ficando perigoso...vamos nos sentar e afivelar os cintos para acoplar!

Jéssica sorriu com sarcasmo enquanto flutuava em direção à sua poltrona. Eu já estava ficando preocupado, a Marilian parecia estar muito próxima, cobrindo toda a tela do sonar com sua imensidão assustadora. Stephanie disse em voz alta e repentinamente:

-ESTAMOS MUITO PRÓXIMOS, POSSO OUVIR ÁGUA ENCANADA CORRENDO PELO MICROFONE EXTERNO, CUIDADO!

Vladmir travou o freio antes de ela terminar de falar, em menos de dois segundos surge na poeira um grupo de 5 janelas redondas da Marilian, com aparência envelhecida. O susto calou toda a tripulação, que agora observava com pavor o interior escuro das grandes janelas de quase 1 metro ali, a poucas dezenas de metros da nossa proa, o casco da grande nave estava aparentemente intacto naquela parte, porém com muitos sinais de formação de gelo e toda empoeirada. Vladmir havia acabado de captar sua presença pelo laser, ao mesmo tempo que Stephanie gritou o alerta de proximidade que o painel de controle também captara, tudo ao mesmo tempo, foi muita sorte não termos batido nela, seria um impacto violento. Eis o grande perigo de navegar entre nuvens gigantescas de poeira, através de navegação inercial, era muito complexo e perigoso.
Jéssica disse então, após alguns segundos de observação:

-Vladmir, Graig, contorne a lateral sentido a deriva vertical, vamos acoplar por cima, no portão 36!
-Ok Jessi, segurem-se, vamos agilizar isso (Disse Vlad enquanto injetava potência novamente nos nossos motores)

O tamanho daquela nave me impressionava, a quantidade de janelas e portas parecia ser infinita, ficamos sondando o casco por quase 5 minutos à 130 Km/h somente visual até chegarmos na parte de cima dela, pudemos ver o portão 36 e após 1 minuto de check-list, iniciamos a aproximação final, o toque aconteceu suave, e todos sentados, pudemos ouvir quando o portão abriu sob nossa escotilha, igualando as pressões com um ruído bem característico.
Jessica fixou os olhos para Stephanie, enquanto a garota mais nova da tripulação analisava a atmosfera interna com rapidez. Logo ela diz, com um meio sorriso de alivio:

-Temperatura 20 Graus Celsius, umidade à 25%, Oxigênio normal...clear!

A tripulação suspirou aliviada, Vlad gritou "YES" dando um tapa leve no console. Ao mesmo tempo que Jessica destravava os cintos com uma empolgante alegria de uma criança ao ver um grande playground. Jess disse com voz ofegante:

-Vamos descer pessoal, Graig, efetue o login na Liza, vistam-se todos, peguem tudo o que for preciso, carregaremos as armas no check-in, Stephanie, quero você monitorando tudo lá dentro comigo, leve todo o equipamento necessário. O Log-book da Liza deve estar completo ein! Bora pessoal, vamos ganhar tempo.

Num processo visivelmente ensaiado, todos nos preparamos para descer. Preparei Liza, a andróide, acionei ela, que logo abriu seus olhos púrpura e emitiu um som que fora se modulando de uma voz metálica para uma voz feminina perfeita durante toda a frase:

-LIZA Acionada às 04:32 horário Greenwich Terra.

Levei ela ao cockpit e a atualizei com o Log-Book que a Stephanie preparou. Disse um tchau rápido para Liza, que com um sorriso confortante me respondeu:

-Boa sorte Senhor Graig.

Cheguei ao Check-In rapidamente, já preparado para a abertura da nossa porta. Nos cumprimentamos, em nossos uniformes especiais, mesmo tendo conhecimento da atmosfera interna adequada, é protocolo entrar equipado para uma possível falta de oxigênio.

Silêncio, e a porta começa a abrir, para entrarmos na sala de adaptação de pressão da Marilian. Atravessamos o túnel com passos cautelosos, afinal, uma nave gigantesca daquela é algo que sempre pode surpreender. Finalmente entramos, e com a sala bem escura, apenas semi-iluminada pelas luzes da nossa nave, ascendemos nossas lanternas no capacete e nas armas. Jessica diz, no rádio:

-Graig, feche a porta, pode selar a pressão, e tente acionar as luzes daqui, pelo menos as de emergência.
-Ok Jessica, fiquem no centro da sala, vou acessar o console daqui.

Abri o console de acesso ao sistema de sistemas do setor, para reestabelecer a iluminação básica do local, mas já constava como "Emergência" acesas, avise a Jessica, que me disse para selar somente, para podemos entrar no saguão, e então o fiz. Igualando as pressões, a porta 36 se fechou e após alguns segundos, a porta do saguão 36 abriu-se. Estávamos oficialmente dentro da Marilian agora.

O Saguão estava escuro, apenas com alguns banners luminosos de restaurantes e serviços diversos fazendo com que víssemos o grande hall em total abandono, sem ninguém ali, sequer corpos ou quaisquer sinais de vida eram visíveis. Jessica ligou o Voice-Out para poder ser ouvida no ambiente, e gritou:

-Alguém pode me ouvir? Viemos resgatar vocês, somos da agência de acidentes.....ALGUÉM PODE ME OUVIR? ESTAMOS NO SAGUÃO, EM DIREÇÃO AO CENTRO DO ANDAR!

O silêncio era triste, senti algo errado no ar, como era possível uma nave com tantas pessoas a bordo estar naquele estado, mesmo sendo uma área mínima, deveríamos estar ouvindo algo, deveria haver alguém.
Jessica foi na frente e disse que não custa nada ter cuidado redobrado, fiquei na retaguarda, logo atrás de Stephanie.
Jessica disse em voz baixa:

-Stephanie, nada audível?
-Nada Jessi, somente tubulações, ouço água pingando, ar condicionado, etc...mas nada de vozes!
-hmm...estranho ein pessoal....

Vladmir observava o teto, os cantos, e nada. Sem sinal de qualquer tipo de vida ativa, estávamos cada minuto mais preocupados. Atravessamos o saguão e chegamos ao corredor que levava ao hospital e ao transporte ferroviário da nave.

Jessica sussurou:

-Isto está escuro demais, estou com um mal pressentimento...Stephanie, há algum som anormal no microfone?
-hmm...não Jessi, estamos com um silêncio terrível lá fora...muito estranho!
-Vou na frente, Graig, assuma a retaguarda atrás da Stephanie, e muita atenção a qualquer som estranho pessoal, qualquer luz, etc...fiquem atentos!

Vladmir concordou verificando nossas posições logo atrás dele...e disse com a voz ansiosa:

-Fiquem atentos pessoal...muito silêncio pra estar normal, vamos com calma!

A equipe foi caminhando com cautela, 100% escuro, somente nossas lanternas eram nossas guias! Nas minhas costas, a fraca luz do saguão estava ficando para trás, a medida que avançavamos pelas trevas frias daquele corredor, o carpete não nos dava a noção dos passos do restante da equipe, pois abafava o som dos mesmos, estávamos nos guiando somente por referências visuais.


À frente, somente uma curva leve para a esquerda era visível no corredor, sem portas nem nada para inspecionar, nos passava pela cabeça aquilo não ter fim, até que chegamos à uma rampa curva para a direita e ligeiramente inclinada para baixo, era a estação de trem da nave. Uma placa, "Estação Setor 36" foi iluminada simultaneamente por todas nossas lanternas. Descemos até a estação, muito escura, precisamos tomar cuidado com todos os lados da nossa caminhada, já que era um local muito amplo. O trem não estava lá, havia uma luz piscando ao lado de uma das poltronas da área de espera para embarque, Vladmir se antecipou e foi até lá verificar a luz:

-Jessica, há algum aparelho piscando aqui, vou verificar...
-Ok Vlad

Vladmir pegou um celular antigo, e abriu, para verificar os dados contidos ali. Ele nos trouxe, e disse:

-Há a foto de um casal...eles tiraram a foto em um restaurante daqui, aparentemente!

Eu me antecipei:

-Os aparelhos não desligam aqui por causa da energia remota enviada pela nave através das paredes, Vlad, verifique os últimos recursos utilizados no aparelho, ligações, emails, mensagens, fotos, vídeos, etc...podemos ter uma noção de quando foi a última vez que alguém esteve aqui na estação. Enquanto isso, Jessica, vou verificar o perímetro, ok?!
-Sim Graig, não se afaste mais que 50 metros da gente, ok (Jessica disse olhando para o celular ainda na mão de Vlad)

Segui pela estação muito atento, e entrei em uma pequena cafeteria ainda aberta, porém escura! Cheguei próximo ao balcão, e encontrei 3 chicaras de café, obviamente frio, uma delas estava pela metade, as outras estavam cheias. As máquinas de café expresso estavam ligadas, mas inoperantes. No chão, um netbook que aparentemente havia caído da mesa, onde uma cadeira estava tombada para trás. Nesta mesa, um copo descartável com chá quase no fim. Peguei o netbook e abri ele em cima da mesa. Fiquei surpreso com o que vi; Um chat, mais especificamente uma vídeo-conferência ainda ativa. Vi meu capacete emitindo a luz forte dos leds na lateral, e do outro lado, uma perna feminina, filmada dos joelhos para baixo, com os pés descalços e sobre o que parecia ser um cobertor rosa. Imóvel.
Chamei Jessica e a equipe no rádio:

-Pessoal, estou no fim da plataforma, em uma cafeteria. Vocês precisam ver isso...
-Estamos indo Graig (Jessica, já aparentando estar em movimento até a cafeteria)

Todos chegaram rapidamente, e eu comentei com a Jessica:

-Estava no chão, veja só a perna que está no outro lado da conexão...
-Hmm...a coloração e a aparência da perna parecem ok, não parece estar morta, ... Stephanie?!

Stephanie se aproximou e enquanto fechava o seu console de monitoramento do ambiente, se prontificou:

-Sim Jessi...diga!
-O ar aqui está ok? Posso abrir o capacete?
-hmm...peraí Jessi, vou confirmar pra você...

Enquanto Stephanie verificava, nós três olhavamos ansiosos para a imagem imóvel das pernas, esperando um mínimo de movimento de lá. Não havia nada digitado, somente o vídeo. A iluminação era fraca, parecia ser a de emergência de alguma suíte da nave. Pois a parede era de uma cor característica das paredes de fibra, um cinza gelo.
Stephanie diz então:

-Jessi, tudo ok...pode abrir!
-Ok Stephanie, pessoal, vou tentar chamar essa mulher pelo áudio, além do mais, estou ficando incomodada de andar no escuro com esse capacete chato.

Jessica acionou o destravamento, e em um rápido movimento, seu capacete avançou para cima e para trás, se acoplando na parte de trás do traje. Jessica logo levantou a cadeira e sentou-se, de frente para a câmera do netbook. Num tom de voz firme e alto, se aproximou um pouco do microfone integrado e disse:

-Olá, a senhorita pode responder? Pode nos ouvir?

E nada....Jessica se certificou do volume do áudio, para que pudéssemos escutar uma possível resposta do outro lado!

-Senhorita, se não puder falar, mecha os pés, dê algum sinal, tente ao menos fazer algum com com a boca se possível...

Ainda sem resposta, as pernas continuavam imóveis. Jessica curvou-se para Stephanie, e solicitou:

-Stephanie, tente rastrear pelo servidor da nave onde está localizada esta outra máquina, para chegarmos o mais rápido possível até essa garota.
-Ok Jessi, já estou fazendo isso!

Vlad olhava sem piscar para a tela, tentando captar algum movimento, e ele então disse:

-Pela taxa de frames da imagem, era para a gente ver um mínimo de diferença na respiração, ela parece nem estar respirando pessoal...
-Eu reparei nisso (Disse Jessica, um pouco conformada) ...mas vamos até lá pra saber o porque dela estar assim, e ela parece jovem, muito estranho isso gente!

Eu continuei o raciocínio:

-Ela está em uma posição estranha, com as pernas viradas para a cabeceira da cama, e parece ser um outro netbook pela altura em relação ao colchão.
-Bem observado Graig, estranho ela estar virada desse jeito...

Stephanie logo diz, meio que cortando a Jessica:

-Turma, ela está no setor 40, em uma suíte central da nave, para solteiro.
-Qual o meio mais rápido de chegar lá? (Vlad)
-Seria pelo monotrilho, mas deixa eu ver........(Stephanie franziu a testa ao ver algo na sua tela de monitoramento) ......caramba!

Na mesma hora, Liza, a andróide na nossa nave de interceptação entra em contato pelo rádio:

-Tripulação, há algo vindo em direção ao local onde vocês estão, velocidade constante de 110 quilômetros por hora, 2 minutos para encontro!
-Obrigado Liza (Stephanie reponde como se já soubesse).....é o trem, ele está em movimento pela nave!

Jessica arregala os olhos e pergunta rapidamente, enquanto fecha o netbook e o guarda em sua mochila:

-Ele vai parar?...nesta estação aqui?

Stephanie age com repentina rapidez e diz:

-Vou fazê-lo parar, vamos indo para a plataforma...rápido!



Continua.......

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Breve trecho - Ensaio de Ficção Espacial - Gardenia, a Flor de Prata!


Finalmente chegara o dia da minha viagem até a Gardenia, que estava "ancorada" na costa sul do Japão. Deixei meu quarto um tanto nervoso, já fazia um bom tempo que eu não embarcava para o espaço, e eu nunca tinha viajado em uma nave tão grande como a Gardenia. Ela fazia a sua 3ª viagem pelo Sistema Solar usando seu eficaz sistema de propulsão elástica, que aproveitava de forma inteligente a própria inércia da atração gravitacional de um planeta como a Terra para fortalecer a potência e a aceleração constante do lançamento no vácuo.
Era uma ótima oportunidade, o meu contrato duraria 5 anos a bordo desse colosso. Eu teria que cuidar de alguns setores da nave enquanto estivesse nela, para então, de tempo em tempo, fuçar algumas sucatas espaciais e emitir relatórios sobre as causas de suas panes, de seus acidentes. Basicamente, eu viveria em uma nave classe-A de graça, contanto que eu trabalhasse para ela, e também contribuísse para a missão paralela de investigação de acidentes com naves abandonadas nas rotas que cruzassem com a nossa. Chamamos nossas rotas de arcos de cruzeiro.

Jéssica, a minha patroa, já me aguardava na Gardenia, mesmo assim, me informaram poucos detalhes sobre nossas missões paralelas à bordo da gigantesca nave. Apenas que tinhamos à disposição uma nave de pequeno porte, porém potente, para fazermos as escalas pelos destroços à deriva. Mas que em um deles precisaríamos ficar pelo menos 15 dias, o que nos cobraria um prazo fixo para investigar e estabelecer as razões que levaram uma nave gigantesca relativamente segura de passageiros perder todos seus contatos com os controles, sem emitir nenhum sinal de emergência, e aparentemente, sem nenhum sinal de vida. Ela estava tão longe que somente a viagem de escala (ida do arco de cruzeiro à possível localização) duraria cerca de 2 meses, e mais 9 meses para reconectar-se à Gardenia.
Ouvia-se falar muito sobre o paradeiro da Marilian-09, e a imprensa apimentava um "suposto descaso" com as vítimas da Marilian, porém, pouco podia se fazer por uma nave tão distante, o espaço não é como o oceano na Terra, onde em algumas horas uma missão de resgate chega com tudo necessário para o salvamento. A gigante havia se aprofundado em velocidade de cruzeiro em uma nuvem de poeira, já sem controle, e não deu mais sinais de vida, a nuvem havia bloqueado quaisquer sinais que ela poderia emitir ou receber. O espaço é grande, e já fazia quase 1 mês do acontecido.

Minha missão na Marilian era descobrir o que gerou o problema dela, que sistema na nave havia falhado. Juntamente com a tripulação de Jéssica, todos agentes da agência de investigação, deveríamos no menos tempo possível chegar a uma conclusão e se possível direcionar a nave para um local ideal próximo ao 3º arco do sistema solar (Terra).
No avião, pensava em como reorganizar minha cabeça para uma missão, depois do acidente e da recuperação na estação da Europa.
Cheguei ao Japão às 20:00 (hora local) e já havia um ônibus levando as pessoas que iriam embarcar na Gardenia. Um recepcionista da agencia me entregou uma mochila, com um crachá, e um I-Micro (uma espécie de computador portátil). Ele me disse qual o portão que eu deveria embarcar, e qual setor e pessoas procurar lá.
Uma hora de viagem no ônibus, e chegamos à plataforma onde estava a Gardenia. Haviam trens de carga, caminhões, aviões gigantescos, etc, todos em volta da Gardênia, quase não tive tempo de admirar a beleza dela, o sentimento de pressa era inevitável. Tomei um café bem rápido, e corri com minha mochila para o embarque. Foi estranho, não caiu a ficha tão cedo de que eu ficaria cerca de 5 anos nos interior daquele aparelho estrondoso ligeiramente prateado que liberava vapores e fumaça por todos os cantos, parecido com uma torre disforme, com tantas luzes que era difícil definir uma forma à ela. Ela era banhada por aeronaves de todos os lados, com banhos térmicos para não congelar, principalmente no topo, que ficava á quase 2000 pés do solo.
Atravessei a ponte que levava ao meu portão de embarque, cruzei o vão entre a ponte e o assoalho do meu andar pretendido com receio, um acidente, por mais forte que sejamos, sempre deixa marcas. O cheiro de plástico, misturado ao odor que os produtos de limpeza recém aplicados no carpete vermelho e azul me deixaram um pouco tonto, os anti-depressivos ainda me deixavam meio bobo em situações típicas, eram efeitos dispensáveis, mas incomodava bastante.

Nunca tinha entrado em uma nave como aquela, tão bonita, tão moderna. Por ser japonesa, tinha uma organização excepcional, os elevadores bem localizados, setores idem, andróides bem identificados, conexão Wi-fi veloz, uma infra-estrutura de dar inveja em qualquer meio de transporte moderno. Me senti meio deslocado até, pois até então só havia frequentado os ambientes antiquados das naves de patrulha, que pareciam mais calabouços frios e rodeados de tubos e válvulas exalando vapor. Meu I-Micro tocou então, exibindo a imagem do rosto de Jéssica, andando pelos corredores à meia-luz da Gardenia, atendi portando uma voz séria, para impressioná-la:

-Agente Carmichael!
-Boa Noite Graig, é a Capitã Jéssica, tudo bem contigo? (uma voz jovem, porém firme responde quase antes de eu acabar)
-Tudo bem Capitã, acabei de chegar na Gardenia!
-hmm...a viagem foi tranquila?
-positivo, tudo correu muito bem!
-ok, após a decolagem, vou convocar uma reunião com a nossa tripulação, só o pessoal da agência, para alinhar o cronograma da nossa missão e deixá-los informados sobre tudo!
-Sim Capitã, estarei pronto até lá!
-Me chame de Jessi.....ah, não atrase, e o local da reunião ainda será definido! Boa Noite Carmichael, boa decolagem!
-Igualmente Capitã! Boa decolagem!
Mais algum tempo e cheguei ao meu setor inicial, somente para os primeiros dias, em seguida seria enviado para um quarto mais próximo ao meu local de trabalho. Comecei a me sentir em casa novamente, uma sensação de que o lugar estava me acolhendo aos poucos foi tomando conta de mim. Eu estava novamente em uma nave, prestes à mergulhar na escuridão fria do universo.

Continua...