
Acordei suando e imóvel, não podia me mexer, por mais força que fizesse, estava estático, travado. Meu olho estava tremulo, como se houvessem repetidos espasmos de dentro pra fora do meu corpo.
A luz oscilava fraca em todo o meu limitado raio de visão, uma minhas mãos doíam muito, e meus pés eu não sentia mais. Flashes azulados e muito fortes começaram a ser visíveis no teto.
Foi quando eu comecei a tomar certa consciência do que estava realmente acontecendo.
Eu é que estava no teto, os flashes estavam no piso da nave que estava a sendo movida em direção à superfície congelada de Pog-Artig-1 à uma velocidade inimaginável. Pensei apenas em acionar os freios de emergência inerciais, porém ainda não podia me mexer. Como vi os flashes, imaginei que já estávamos perfurando a alta atmosfera de Artig. Quando pude ver a porta aberta no canto da cabine onde eu estava, em frações de segundos eu pensava o que poderia ter nos deixado naquela situação, à deriva. Algo muito forte, alguma força ou impacto, tinha feito toda aquela bagunça, inclusive me arrancado a força do hiper-sono na cápsula. Eu estava "colado" no teto por causa força G negativa atuando na nossa nave de patrulha.
Houve então uma desaceleração e fui gradualmente arremessado sem muita força contra o batente superior da porta automática, então percebi por conta própria que ela estava aberta por causa dos sensores de impacto e talvez o acionamento manual da alavanca de pré-evacuação, caiu a ficha então da terrível situação que os 5 tripulantes ali estavam. Será que só eu estava acordado?...será que estavam todos bem?
Eu começava então a recuperar a audição derrepente, e pude escutar o que posso dizer com certeza o som mais aterrorizante que já ouvi, o denso oxigênio queimando com muita força nossa fuselagem na terrível queda a aproximadamente 17 mil quilometros por hora.
Meus movimentos voltaram com a desaceleração, pra minha surpresa, e pude, com muita força, passar para o lado de fora da minha cabine e ver, ao fim do corredor, as chamas alaranjadas roçarem violentamente o parabrisa da nave.
Fiquei atordoado com a cena terrível da piloto Jenna Mason tentando, por debaixo do console central do painel acionar a alavanca de freios inerciais, mas ela estava sangrando muito, seus olhos estavam jorrando sangue, o sangue que dançava no ar por causa das repentinas forças G atuantes na queda, e molhavam todo o painel e paredes do cockpit. Ela estava nua e tremula, provavelmente também havia acordado com a trepidação anormal. Então senti um imenso impacto na lateral direita que me jogou para algum canto da nave, ainda não lembro o que exatamente aconteceu comigo no impacto que acabara de acontecer. Mas tudo ficou claro e muito frio, não conseguia manter-me em consciencia, sentia o sabor de sangue na minha boca, e havia muito vento na minha face, achei que meus olhos não podiam abrir, mas na verdade eu estava com eles virados para cima, fiquei atordoado com a pancada.
Um assovio anormal do vento laminar em alguma superfície da fuselagem foi a última coisa identificável que pude ouvir. Mais nada. Apaguei.
Acordo com uma enfermeira italiana trocando a minha medicação que estava sendo injetada. Ela conversava com alguém em uma maca paralela a minha, me sentia com 500 kilos naquela maca, minha cabeça estava pulsando de dor, logo fechei meus olhos, a luz parecia queimar minha córnea quando tentava enxergar algo. Pude escutar alguém perguntando meu nome em inglês, uma moça.
Respondi "...Greig" sem quase abrir a boca, sussurrando.
Então a moça me disse que eu era um sobrevivente da queda da Solon-Blue-59, e que no momento eu estava em uma estação na órbita da Europa.
Eu havia sobrevivido então, à queda da nave em Artig. Mas e os outros 4 tripulantes?
Bom, apenas soube, de início, que a ciborgue responsável pela programação e pilotagem enquanto estávamos em hiper-sono havia tido uma pane nas proximidades de Artig, entre o planeta e seu satélite artificial, então perdemos os comandos automáticos, e com a sucção gravitacional foi ativado o despertar de emergência, mas fora tarde demais para a recuperação de potência, estávamos com apenas 2% da potência disponível, e fomos amortecidos pela densa atmosfera até o choque com um gigantesco lago congelado.
Fui encontrado em meio a pedaços da nave a cerca de 2 quilômentros do maior pedaço da Solon-Blue-59, Jenna estava desaparecida desde então. Marco, Ivanna e Pablo foram encontrados mortos em pedaços separados da Solon a 5 quilômetros a frente do meu ponto da queda.
Eu havia sofrido o menor impacto, pois fiquei com o pedaço da nave que tinha acionado o paraquedas balístico, o fundo da nave, onde ficava o banheiro no qual fiquei preso na desaceleração.
Ivanna era minha melhor amiga, estávamos começando um promissor e secreto relacionamento.
Demorou para cair a ficha, acordei 3 meses após a queda, mas só consegui chorar e me dar conta do que havia acontecido depois de 2 dias.
Eu era, teoricamente, o único sobrevivente da queda que vitimou 4 tripulantes e 1 ciborgue em um planeta do arco de Hawkin, na Via-Láctea.
Começava uma nova vida. Com uma futura nova tripulação!
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