
Acordei tenso, a
Marilian estava a vista. Gigantesca sucata escurecida pela ausência total de luz, encoberta pela nuvem de poeira, tal mancha escura era 17 vezes maior nosso companheiro
Júpiter, o atrito aparentemente havia
frenado a
Marilian em seu interior.
Nossa pequena nave de interceptação estava a poucas horas de acoplar em uma das escotilhas de emergência da gigante. Começamos a procurar ela no meio da poeira, segundo o sonar, já deveria estar visual da nossa cabine, mas somente a escuridão e os gases da poeira eram visíveis perante nossos faróis. Vladmir estava revezando rapidamente o olhar entre o sonar e as janelas do cockpit, tentando a todo custo uma aproximação segura daquilo que parecia estar muito perto para não ser visível. A vista era semelhante ao do fundo do mar com muita areia escura suspensa na nossa frente. Jessica apontou rapidamente, sem dizer nada, às 14 horas da nossa proa, e disse depois de uns 5 segundos:
-Juro por tudo que eu vi uma luz branca piscando bem forte ali.
....Vladmir reduziu toda a potência! E disse quase instantaneamente depois do alerta de Jessica:
-Usarei o laser, já está ficando perigoso...vamos nos sentar e
afivelar os
cintos para acoplar!
Jéssica sorriu com sarcasmo enquanto flutuava em direção à sua poltrona. Eu já estava ficando preocupado, a Marilian parecia estar muito próxima, cobrindo toda a tela do sonar com sua imensidão assustadora. Stephanie disse em voz alta e repentinamente:
-ESTAMOS MUITO PRÓXIMOS, POSSO OUVIR ÁGUA ENCANADA CORRENDO PELO MICROFONE EXTERNO, CUIDADO!
Vladmir travou o freio antes de ela terminar de falar, em menos de dois segundos surge na poeira um grupo de 5 janelas redondas da Marilian, com aparência envelhecida. O susto calou toda a tripulação, que agora observava com pavor o interior escuro das grandes janelas de quase 1 metro ali, a poucas dezenas de metros da nossa proa, o casco da grande nave estava aparentemente intacto naquela parte, porém com muitos sinais de formação de gelo e toda empoeirada. Vladmir havia acabado de captar sua presença pelo laser, ao mesmo tempo que Stephanie gritou o alerta de proximidade que o painel de controle também captara, tudo ao mesmo tempo, foi muita sorte não termos batido nela, seria um impacto violento. Eis o grande perigo de navegar entre nuvens gigantescas de poeira, através de navegação inercial, era muito complexo e perigoso.
Jéssica disse então, após alguns segundos de observação:
-Vladmir, Graig, contorne a lateral sentido a deriva vertical, vamos acoplar por cima, no portão 36!
-Ok Jessi, segurem-se, vamos agilizar isso (Disse Vlad enquanto injetava potência novamente nos nossos motores)
O tamanho daquela nave me impressionava, a quantidade de janelas e portas parecia ser infinita, ficamos sondando o casco por quase 5 minutos à 130 Km/h somente visual até chegarmos na parte de cima dela, pudemos ver o portão 36 e após 1 minuto de check-list, iniciamos a aproximação final, o toque aconteceu suave, e todos sentados, pudemos ouvir quando o portão abriu sob nossa escotilha, igualando as pressões com um ruído bem característico.
Jessica fixou os olhos para Stephanie, enquanto a garota mais nova da tripulação analisava a atmosfera interna com rapidez. Logo ela diz, com um meio sorriso de alivio:
-Temperatura 20 Graus Celsius, umidade à 25%, Oxigênio normal...clear!
A tripulação suspirou aliviada, Vlad gritou "YES" dando um tapa leve no console. Ao mesmo tempo que Jessica destravava os cintos com uma empolgante alegria de uma criança ao ver um grande playground. Jess disse com voz ofegante:
-Vamos descer pessoal, Graig, efetue o login na Liza, vistam-se todos, peguem tudo o que for preciso, carregaremos as armas no check-in, Stephanie, quero você monitorando tudo lá dentro comigo, leve todo o equipamento necessário. O Log-book da Liza deve estar completo ein! Bora pessoal, vamos ganhar tempo.
Num processo visivelmente ensaiado, todos nos preparamos para descer. Preparei Liza, a andróide, acionei ela, que logo abriu seus olhos púrpura e emitiu um som que fora se modulando de uma voz metálica para uma voz feminina perfeita durante toda a frase:
-LIZA Acionada às 04:32 horário Greenwich Terra.
Levei ela ao cockpit e a atualizei com o Log-Book que a Stephanie preparou. Disse um tchau rápido para Liza, que com um sorriso confortante me respondeu:
-Boa sorte Senhor Graig.
Cheguei ao Check-In rapidamente, já preparado para a abertura da nossa porta. Nos cumprimentamos, em nossos uniformes especiais, mesmo tendo conhecimento da atmosfera interna adequada, é protocolo entrar equipado para uma possível falta de oxigênio.
Silêncio, e a porta começa a abrir, para entrarmos na sala de adaptação de pressão da Marilian. Atravessamos o túnel com passos cautelosos, afinal, uma nave gigantesca daquela é algo que sempre pode surpreender. Finalmente entramos, e com a sala bem escura, apenas semi-iluminada pelas luzes da nossa nave, ascendemos nossas lanternas no capacete e nas armas. Jessica diz, no rádio:
-Graig, feche a porta, pode selar a pressão, e tente acionar as luzes daqui, pelo menos as de emergência.
-Ok Jessica, fiquem no centro da sala, vou acessar o console daqui.
Abri o console de acesso ao sistema de sistemas do setor, para reestabelecer a iluminação básica do local, mas já constava como "Emergência" acesas, avise a Jessica, que me disse para selar somente, para podemos entrar no saguão, e então o fiz. Igualando as pressões, a porta 36 se fechou e após alguns segundos, a porta do saguão 36 abriu-se. Estávamos oficialmente dentro da Marilian agora.
O Saguão estava escuro, apenas com alguns banners luminosos de restaurantes e serviços diversos fazendo com que víssemos o grande hall em total abandono, sem ninguém ali, sequer corpos ou quaisquer sinais de vida eram visíveis. Jessica ligou o Voice-Out para poder ser ouvida no ambiente, e gritou:
-Alguém pode me ouvir? Viemos resgatar vocês, somos da agência de acidentes.....ALGUÉM PODE ME OUVIR? ESTAMOS NO SAGUÃO, EM DIREÇÃO AO CENTRO DO ANDAR!
O silêncio era triste, senti algo errado no ar, como era possível uma nave com tantas pessoas a bordo estar naquele estado, mesmo sendo uma área mínima, deveríamos estar ouvindo algo, deveria haver alguém.
Jessica foi na frente e disse que não custa nada ter cuidado redobrado, fiquei na retaguarda, logo atrás de Stephanie.
Jessica disse em voz baixa:
-Stephanie, nada audível?
-Nada Jessi, somente tubulações, ouço água pingando, ar condicionado, etc...mas nada de vozes!
-hmm...estranho ein pessoal....
Vladmir observava o teto, os cantos, e nada. Sem sinal de qualquer tipo de vida ativa, estávamos cada minuto mais preocupados. Atravessamos o saguão e chegamos ao corredor que levava ao hospital e ao transporte ferroviário da nave.
Jessica sussurou:
-Isto está escuro demais, estou com um mal pressentimento...Stephanie, há algum som anormal no microfone?
-hmm...não Jessi, estamos com um silêncio terrível lá fora...muito estranho!
-Vou na frente, Graig, assuma a retaguarda atrás da Stephanie, e muita atenção a qualquer som estranho pessoal, qualquer luz, etc...fiquem atentos!
Vladmir concordou verificando nossas posições logo atrás dele...e disse com a voz ansiosa:
-Fiquem atentos pessoal...muito silêncio pra estar normal, vamos com calma!
A equipe foi caminhando com cautela, 100% escuro, somente nossas lanternas eram nossas guias! Nas minhas costas, a fraca luz do saguão estava ficando para trás, a medida que avançavamos pelas trevas frias daquele corredor, o carpete não nos dava a noção dos passos do restante da equipe, pois abafava o som dos mesmos, estávamos nos guiando somente por referências visuais.

À frente, somente uma curva leve para a esquerda era visível no corredor, sem portas nem nada para inspecionar, nos passava pela cabeça aquilo não ter fim, até que chegamos à uma rampa curva para a direita e ligeiramente inclinada para baixo, era a estação de trem da nave. Uma placa, "Estação Setor 36" foi iluminada simultaneamente por todas nossas lanternas. Descemos até a estação, muito escura, precisamos tomar cuidado com todos os lados da nossa caminhada, já que era um local muito amplo. O trem não estava lá, havia uma luz piscando ao lado de uma das poltronas da área de espera para embarque, Vladmir se antecipou e foi até lá verificar a luz:
-Jessica, há algum aparelho piscando aqui, vou verificar...
-Ok Vlad
Vladmir pegou um celular antigo, e abriu, para verificar os dados contidos ali. Ele nos trouxe, e disse:
-Há a foto de um casal...eles tiraram a foto em um restaurante daqui, aparentemente!
Eu me antecipei:
-Os aparelhos não desligam aqui por causa da energia remota enviada pela nave através das paredes, Vlad, verifique os últimos recursos utilizados no aparelho, ligações, emails, mensagens, fotos, vídeos, etc...podemos ter uma noção de quando foi a última vez que alguém esteve aqui na estação. Enquanto isso, Jessica, vou verificar o perímetro, ok?!
-Sim Graig, não se afaste mais que 50 metros da gente, ok (Jessica disse olhando para o celular ainda na mão de Vlad)
Segui pela estação muito atento, e entrei em uma pequena cafeteria ainda aberta, porém escura! Cheguei próximo ao balcão, e encontrei 3 chicaras de café, obviamente frio, uma delas estava pela metade, as outras estavam cheias. As máquinas de café expresso estavam ligadas, mas inoperantes. No chão, um netbook que aparentemente havia caído da mesa, onde uma cadeira estava tombada para trás. Nesta mesa, um copo descartável com chá quase no fim. Peguei o netbook e abri ele em cima da mesa. Fiquei surpreso com o que vi; Um chat, mais especificamente uma vídeo-conferência ainda ativa. Vi meu capacete emitindo a luz forte dos leds na lateral, e do outro lado, uma perna feminina, filmada dos joelhos para baixo, com os pés descalços e sobre o que parecia ser um cobertor rosa. Imóvel.
Chamei Jessica e a equipe no rádio:
-Pessoal, estou no fim da plataforma, em uma cafeteria. Vocês precisam ver isso...
-Estamos indo Graig (Jessica, já aparentando estar em movimento até a cafeteria)
Todos chegaram rapidamente, e eu comentei com a Jessica:
-Estava no chão, veja só a perna que está no outro lado da conexão...
-Hmm...a coloração e a aparência da perna parecem ok, não parece estar morta, né... Stephanie?!
Stephanie se aproximou e enquanto fechava o seu console de monitoramento do ambiente, se prontificou:
-Sim Jessi...diga!
-O ar aqui está ok? Posso abrir o capacete?
-hmm...peraí Jessi, vou confirmar pra você...
Enquanto Stephanie verificava, nós três olhavamos ansiosos para a imagem imóvel das pernas, esperando um mínimo de movimento de lá. Não havia nada digitado, somente o vídeo. A iluminação era fraca, parecia ser a de emergência de alguma suíte da nave. Pois a parede era de uma cor característica das paredes de fibra, um cinza gelo.
Stephanie diz então:
-Jessi, tudo ok...pode abrir!
-Ok Stephanie, pessoal, vou tentar chamar essa mulher pelo áudio, além do mais, estou ficando incomodada de andar no escuro com esse capacete chato.
Jessica acionou o destravamento, e em um rápido movimento, seu capacete avançou para cima e para trás, se acoplando na parte de trás do traje. Jessica logo levantou a cadeira e sentou-se, de frente para a câmera do netbook. Num tom de voz firme e alto, se aproximou um pouco do microfone integrado e disse:
-Olá, a senhorita pode responder? Pode nos ouvir?
E nada....Jessica se certificou do volume do áudio, para que pudéssemos escutar uma possível resposta do outro lado!
-Senhorita, se não puder falar, mecha os pés, dê algum sinal, tente ao menos fazer algum com com a boca se possível...
Ainda sem resposta, as pernas continuavam imóveis. Jessica curvou-se para Stephanie, e solicitou:
-Stephanie, tente rastrear pelo servidor da nave onde está localizada esta outra máquina, para chegarmos o mais rápido possível até essa garota.
-Ok Jessi, já estou fazendo isso!
Vlad olhava sem piscar para a tela, tentando captar algum movimento, e ele então disse:
-Pela taxa de frames da imagem, era para a gente ver um mínimo de diferença na respiração, ela parece nem estar respirando pessoal...
-Eu reparei nisso (Disse Jessica, um pouco conformada) ...mas vamos até lá pra saber o porque dela estar assim, e ela parece jovem, muito estranho isso gente!
Eu continuei o raciocínio:
-Ela está em uma posição estranha, com as pernas viradas para a cabeceira da cama, e parece ser um outro netbook pela altura em relação ao colchão.
-Bem observado Graig, estranho ela estar virada desse jeito...
Stephanie logo diz, meio que cortando a Jessica:
-Turma, ela está no setor 40, em uma suíte central da nave, para solteiro.
-Qual o meio mais rápido de chegar lá? (Vlad)
-Seria pelo monotrilho, mas deixa eu ver........(Stephanie franziu a testa ao ver algo na sua tela de monitoramento) ......caramba!
Na mesma hora, Liza, a andróide na nossa nave de interceptação entra em contato pelo rádio:
-Tripulação, há algo vindo em direção ao local onde vocês estão, velocidade constante de 110 quilômetros por hora, 2 minutos para encontro!
-Obrigado Liza (Stephanie reponde como se já soubesse).....é o trem, ele está em movimento pela nave!
Jessica arregala os olhos e pergunta rapidamente, enquanto fecha o netbook e o guarda em sua mochila:
-Ele vai parar?...nesta estação aqui?
Stephanie age com repentina rapidez e diz:
-Vou fazê-lo parar, vamos indo para a plataforma...rápido!
Continua.......