sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Erro Primordial


No meu passado de dor...
...memorizei meus erros
esqueci meu triunfo
minha alma vagarosa
e meus campos petrificados
minha aparente queda
o espelho não mais me encarava
meus olhos, não mais os via
não mais, acabara ali o meu encanto
estou mais próximos dos cantos
mais a vontade com o breu cego
desgraçada angústia da manhã
a podridão de um novo dia
camadas de visões pessimistas
impediam-me de sair de casa
morram doces jovens do futuro
adoeçam pobres sombras do passado
calarei cada hipócrita ativo
cada Messias imaculado
faço das minhas mãos hereges
veja os alvos no alto céu da falsa hierarquia
seu "Deus" está morto, eu mesmo o enterrei
na alta e vultuosa montanha de sangue
oh, minhas pagãs carbonizadas
minhas dádivas naturais
adoram a tal da Lua
surgem com vigor da caverna de Platão
de posse da cabeça putrificada....
...de uma imagem fraca e imunda de um louco sagrado
...estou no alto de minha tristeza, convertida em fúria
de minha raiva nascem os novos conceitos
bravos heróis renascentistas, ouçam-me
siguemos o norte verdadeiro...
esta noite somos ricos, somos a libido na carne
somos do osso à pele o banho real
deixem que os pobres prometidos do paraíso engulam seco
suas desilusões previstas pela natureza carnal
deixem que sofram o que sofremos por bem
o que me tornou, um mero pagão...
um mortal que vive a imensidão inexplorada
que chora, sorri, e um dia morre
vida longa a carne...

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Chuva Fria


Chuva fria, calma dança das águas
leve e contínua, constante inspiração
vê-te na queda com tanta beleza
andarilha dos céus, refresco da geada
apaga o brilho do sol ordinário
tens sempre bons motivos para vir
cada dia de frio lhe é bem servido
e na mata faz sonata ao cair
nos rios entra no compasso da correnteza
na tremula cidade de pedras, domina
no altar dos picos montanhosos renasce
sugere ao poeta seu tema, sua paixão
nem que triste seja seu coração
na simplicidade do gramado externo
cai na maravilha de seus passos
bailarina d'agua, cintilante pouso
sua sensualidade atrai meu olhar
na vidraça, triste céu pálido
adormeço na minha depressão
caindo no buraco que de tão fundo
acordara antes de chegar ao seu fim
seu sussurro ainda permeia na janela
lágrimas secam, mas você minha deusa
não permite que estas sejam falsas
leve chuva gelada, você me diz sempre...
...que a vida é triste, e como é triste...
mas ainda sim é real!

domingo, 12 de dezembro de 2010

Breve trecho - Ensaio de Ficção Espacial -cap. Trauma



Acordei suando e imóvel, não podia me mexer, por mais força que fizesse, estava estático, travado. Meu olho estava tremulo, como se houvessem repetidos espasmos de dentro pra fora do meu corpo.
A luz oscilava fraca em todo o meu limitado raio de visão, uma minhas mãos doíam muito, e meus pés eu não sentia mais. Flashes azulados e muito fortes começaram a ser visíveis no teto.
Foi quando eu comecei a tomar certa consciência do que estava realmente acontecendo.

Eu é que estava no teto, os flashes estavam no piso da nave que estava a sendo movida em direção à superfície congelada de Pog-Artig-1 à uma velocidade inimaginável. Pensei apenas em acionar os freios de emergência inerciais, porém ainda não podia me mexer. Como vi os flashes, imaginei que já estávamos perfurando a alta atmosfera de Artig. Quando pude ver a porta aberta no canto da cabine onde eu estava, em frações de segundos eu pensava o que poderia ter nos deixado naquela situação, à deriva. Algo muito forte, alguma força ou impacto, tinha feito toda aquela bagunça, inclusive me arrancado a força do hiper-sono na cápsula. Eu estava "colado" no teto por causa força G negativa atuando na nossa nave de patrulha.

Houve então uma desaceleração e fui gradualmente arremessado sem muita força contra o batente superior da porta automática, então percebi por conta própria que ela estava aberta por causa dos sensores de impacto e talvez o acionamento manual da alavanca de pré-evacuação, caiu a ficha então da terrível situação que os 5 tripulantes ali estavam. Será que só eu estava acordado?...será que estavam todos bem?

Eu começava então a recuperar a audição derrepente, e pude escutar o que posso dizer com certeza o som mais aterrorizante que já ouvi, o denso oxigênio queimando com muita força nossa fuselagem na terrível queda a aproximadamente 17 mil quilometros por hora.

Meus movimentos voltaram com a desaceleração, pra minha surpresa, e pude, com muita força, passar para o lado de fora da minha cabine e ver, ao fim do corredor, as chamas alaranjadas roçarem violentamente o parabrisa da nave.

Fiquei atordoado com a cena terrível da piloto Jenna Mason tentando, por debaixo do console central do painel acionar a alavanca de freios inerciais, mas ela estava sangrando muito, seus olhos estavam jorrando sangue, o sangue que dançava no ar por causa das repentinas forças G atuantes na queda, e molhavam todo o painel e paredes do cockpit. Ela estava nua e tremula, provavelmente também havia acordado com a trepidação anormal. Então senti um imenso impacto na lateral direita que me jogou para algum canto da nave, ainda não lembro o que exatamente aconteceu comigo no impacto que acabara de acontecer. Mas tudo ficou claro e muito frio, não conseguia manter-me em consciencia, sentia o sabor de sangue na minha boca, e havia muito vento na minha face, achei que meus olhos não podiam abrir, mas na verdade eu estava com eles virados para cima, fiquei atordoado com a pancada.

Um assovio anormal do vento laminar em alguma superfície da fuselagem foi a última coisa identificável que pude ouvir. Mais nada. Apaguei.

Acordo com uma enfermeira italiana trocando a minha medicação que estava sendo injetada. Ela conversava com alguém em uma maca paralela a minha, me sentia com 500 kilos naquela maca, minha cabeça estava pulsando de dor, logo fechei meus olhos, a luz parecia queimar minha córnea quando tentava enxergar algo. Pude escutar alguém perguntando meu nome em inglês, uma moça.

Respondi "...Greig" sem quase abrir a boca, sussurrando.

Então a moça me disse que eu era um sobrevivente da queda da Solon-Blue-59, e que no momento eu estava em uma estação na órbita da Europa.

Eu havia sobrevivido então, à queda da nave em Artig. Mas e os outros 4 tripulantes?

Bom, apenas soube, de início, que a ciborgue responsável pela programação e pilotagem enquanto estávamos em hiper-sono havia tido uma pane nas proximidades de Artig, entre o planeta e seu satélite artificial, então perdemos os comandos automáticos, e com a sucção gravitacional foi ativado o despertar de emergência, mas fora tarde demais para a recuperação de potência, estávamos com apenas 2% da potência disponível, e fomos amortecidos pela densa atmosfera até o choque com um gigantesco lago congelado.

Fui encontrado em meio a pedaços da nave a cerca de 2 quilômentros do maior pedaço da Solon-Blue-59, Jenna estava desaparecida desde então. Marco, Ivanna e Pablo foram encontrados mortos em pedaços separados da Solon a 5 quilômetros a frente do meu ponto da queda.

Eu havia sofrido o menor impacto, pois fiquei com o pedaço da nave que tinha acionado o paraquedas balístico, o fundo da nave, onde ficava o banheiro no qual fiquei preso na desaceleração.

Ivanna era minha melhor amiga, estávamos começando um promissor e secreto relacionamento.

Demorou para cair a ficha, acordei 3 meses após a queda, mas só consegui chorar e me dar conta do que havia acontecido depois de 2 dias.

Eu era, teoricamente, o único sobrevivente da queda que vitimou 4 tripulantes e 1 ciborgue em um planeta do arco de Hawkin, na Via-Láctea.



Começava uma nova vida. Com uma futura nova tripulação!

sábado, 11 de dezembro de 2010

Breve trecho - Ensaio de Ficção Espacial Cap. *A visão de Andromeda*

ATENÇÃO - ESTE TRECHO NÃO FAZ MAIS PARTE DO MEU "PROJETO DE FICÇÃO" E SOMENTE AQUI ESTÁ PARA A LEITURA! - - - - MOTIVO: NÃO GOSTEI!...rs


Observei aquilo sem pensar em mais nada, lá estava ela, Andromeda. Seu brilho não era como nas revistas e imagens artificiais, tinha uma profundidade que jamais havia visto em nenhum local que passara no universo.

As luzes da Gardenia* se apagaram, inclusive a do corredor onde eu observava aquela gigante lilás. Somente sua luz firme e parecida em intensidade com a da luz da lua sobre a terra reinava sobre minha face aterrorizada com tamanha grandeza. Era linda, não havia palavras para decifrar o aperto no meu peito que aquela imagem causava. Um dos mecânicos da Gardenia comicamente já havia me dito certa vez que o melhor dos orgasmos que ele tivera na terra não chegava aos pés daquela sensação próximo à Andromeda, pois é, estou pra dizer o mesmo.

Ouvi um pequeno e discreto soluço, forcei minha vista para fora da vista e pude ver, na outra ponta da janela, uma garotinha de cerca de 10 anos chorando muito com as mão tremulas na face, observando abismada o centro de Andromeda. Voltei lentamente meu olhos também molhados para aqueles braços espirais marrons, que refletiam ligeiramente a fortíssima luz vinda do centro.

Aquele momento parecia ser eterno, chorei 3 vezes seguidas ao ver aquilo, foi verdadeiramente mágico.

Minhas pernas estavam tremulas de emoção mesmo após 50 minutos de observação, ninguém no corredor conseguia tirar os olhos da assombrosa galáxia, a luz levava milhões de anos para atravessar aquela massa colorida, eu não conseguiria dar nome àquelas cores, de tão fantasticamente nebulosas entre a poeira visual que era meio que translúcida. E tantas bilhões de estrelas vagavam estáticas diante dos meus olhos.


As luzes se acenderam novamente depois de uma hora e meia, e a garotinha já dormia em seu andar enquanto eu tomava um café no andar 7-L, no horário da Gardenia eram 2:06, e eu ainda não havia falado com Jéssica sobre minhas reais intenções sobre a recuperação da suposta proa vagante da Marilian-09, a qual nos aproximávamos, faltavam apenas 2 semanas para o encontro com os arredores da gigantesca sucata.

Jéssica provavelmente estava acordada mas eu ainda não dormira, e mesmo assim, seria melhor programar as coordenadas de interceptação da Marilian, Jéssica era séria demais para eu chegar apenas com a intenção de participar da missão de resgate, seria melhor eu ao menos fazer a programação da interceptação antes de confirmar minha presença na tripulação.

Pedi um segundo café antes de o comandante anunciar que em breve começaria o período de silêncio nos andares periféricos, eu estava correndo o risco de ficar as escuras nos corredores até encontrar meu quarto, eu era novo na nave, ainda não me acostumava com o complexos caminhos da Gardenia. Além do mais, uma nave que comporta 9000 pessoas não era das pequenas. Guardei meus papéis na minha pasta e terminei o café já morno antes de deixar a cafeteria.

Corredores já desertos, cruzei com a vidraça do jardim do hospital iluminado para o natal com luzes azuladas e sorri com a vaga ironia de estarmos tão longe de onde o natal era comemorado em terra. O natal fica tão insignificante diante da galáxia que eu vi agora a pouco, tão minúsculo e medíocre. Aliás, muita coisa que pra mim era importante fica ofuscada por aquela princesa espiral que roubou minha expressão boquiaberta por tanto tempo. Quando despertar verei-a novamente para começar bem o dia. Amanhã confirmo minha presença na tripulação para a interceptação da Marilian-09, ou melhor, da proa abandonada dela.

Chego à porta do meu quarto meditando sobre Andromeda, ainda baqueado com a visão, então passo o cartão para o meu banho e meu merecido sono. Mais um dia do meu despertar na Gardenia, estava começando a me acostumar com a viagem e seus efeitos complexos.


continua....

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

O Fantasma do Mar - trecho de "A Base Chacrau"


A neblina arrebenta sua fluidez nas pedras cinzentas do grande muro
contorna com sabedoria as arestas desgastadas, outrora firmes
o orvalho divide-se na cor com a geada matinal, o frio tão triste
lanterna, sugira o caminho desta neblina que vaga no bosque frio
seja a melhor anfitriã do vento que vem de mar lá abaixo
sua imensidão cobre o mato seco que permeia a muito sem vida
neblina, névoa densa, véu do mar, fantasma do litoral
cala a fanfarra do vento alegre que já fora a tempos passados
transforme o ambiente do seu caminho até esta construção quieta
o bosque por onde passas admira-te em sua condição suprema
purifique o ar com o silêncio que carrega das pedras do farol de longe
avante com louvor para além da copa dos eucaliptos, além dos morros
vá até os túneis onde os espíritos renegados choram a perda da alegria
dê uma razão para vagarem em busca do seu fim previsto
seja a inspiração do pianista mascarado, seu tema omnipotente de solidão
acaricie o cabelo solto da dama de lilás cruzando a ponte das luzes
fantasie os olhos da criança mimada e desiludida nos terraços do vale
traga inocência às terríveis assombrações da cidade ao leste e cale-as
nos fortaleça com o cheiro amargo do sal do oceano
tal oceano, que fora palco de passagens surreais das embarcações de ilusões
dos dragões no alto, das aeronaves cruzadoras, dos metálicos seres submarinos
varrendo a maldade humana da superfície, seja nossa baixa atmosfera
nossa deusa, minha névoa amada, nunca deixe de vir
em todas as manhãs frias...

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Angústia Matutina

A noite então vai embora
ela não some no horizonte
desintegra suave no ar
quando percebo, lá está a luz
o sol, já incomodando por detrás do horizonte
Escuridão, apaixonante breu
nas trevas faz de mim um rei
torna meu olhar confortável
nestas suas estrelas oscilantes
o céu noturno, abençoada visão
Calo-me sempre que vejo aquela luz
que vem de leste, me visitar
quando penso nela, tão distante
me conforto, sei que não estou sozinho
lá ela arde em energia, só pra mim
ninguém a repara na vasta capa negra
cheia de companheiras, mas ela lá está
sobre o meu olhar, na minha cama
e insisto em não tirar os olhos
até ela cruzar meu pequeno céu
Então os pássaros cantam, aos poucos
e o silêncio vai embora
o azul celeste força sua entrada
e a minha querida vai para oeste, brilhando, sempre!
preciso dormir, não vale a pena, viver este dia sem ela...
Amanhã vejo-a novamente, admirando-a a noite inteira...

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

A.H. - Parte 1


Entro pelo vão frio que corta com violência o muro cinzento da horrenda fachada apagada
silêncio gelado, o escuro aqui tem um ruído inaudível tão pesado que pressiona-me os ouvidos
a cada passo tenho a estranha sensação de despedida, do lado de fora do muro
o hospital me torna seu visitante inesperado, incomodo. Sou um intruso!
calo-me sem antes falar nada, o silêncio ganha cores no escuro
o preto coagulado se sobressai acima ainda da escuridão frígida, é o sangue em toda parte
entre os pisos, azulejos, cada canto guarda sua carnificina mórbida
respirando pelo nariz, o odor putrificado da carne se mistura ao ferrugem corroído no ar
a minha marcha ao nada é pesada, ineficiente perante a massa escura que me agarra
chuto sem prever um grupo de unhas mergulhadas no sangue pisado
descendo um lance de escadas, avisto na altura dos meus olhos um corpo
pálido, massa disforme, reconheço um lábio suturado a um dedo, doentia visão
irracionalidade aplicada com violência a um corpo pálido dependurado em um gancho
ouço passos em cacos de vidro no chão molhado
minha chama do isqueiro oscila contra minha face, não posso ver sequer um palmo a frente
como uma cortina preta que aparece do nada, estou cego
cerca de 3 corpos respirando ao meu redor, caminhando calmamente
não os vejo, mas estão vivos, meus olhos estão virando para cima
minha boca abre e lanço um ruído estranho e vomitado entre um quase sussurro
minhas costas se dobram em incontáveis voltas, a dor vem como um orgasmo pulsante
meu osso está visível aos meus olhos trêmulos, parece um maxilar, é o meu próprio
os seres andarilhos gemem muito alto, o susto não é permitido entre as dores que sinto
estou ainda me retorcendo no chão, por uma força descomunal que nunca senti antes
mancando na parede, ainda tento um último sinal de resistência
mesmo assim, sei que meu corpo não tem mais volta, e ainda estou consciente
não acredito que entrei, porque entrei?!
pareço estar ao avesso sobre o sangue coagulado que arrasta-se no chão abaixo de mim
vomito o que parece ser sangue, quente, o sabor de metal, isto é familiar
em dez segundos, cerca de quarenta sons horríveis dos meus ossos se estraçalhando
agora me agito em desespero, sinto os ossos rasparem no chão e no canto da parede
então sou comprimido a algo do tamanho de um cão
estou reduzido, esmagado pelo ambiente
e ainda respiro
ainda vejo
ainda sinto
ainda vivo....
....
...
..
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